miaescreve

trinta e dois dentes

Acordei com a certeza da ressaca por uma noite mal dormida. A dor no corpo e o desconforto na cabeça foram surgindo ao longo do dia, mas eu fui persistente. O dia passou, lentamente, mas passou.

Então chegou o horário de almoço após algumas centenas de minutos. Movimentos mecânicos. Pegar a marmita no congelador, programar o micro-ondas, colocar o pote, fechar a porta, esperar, esperar examinando meus dentes no espelho embutido na porta do micro-ondas.

Me peguei rememorando. Às vezes minha memória é afiada como uma faca de luxo, mas boa parte das vezes ela é traiçoeira. Depois de revirar angústias velhas, checando para ver se elas permaneciam ali, dei de cara com um fato da minha juventude.

A cena era composta por minha irmã e eu, nós duas lado a lado, ombro a ombro para compartilharmos um espelho de corpo estreito. Minha irmã e eu, já faz tanto tempo. Sempre fomos muito parecidas, coisa que sempre foi comentada desde o nascimento dela.

Nós duas, lado a lado, ombro com ombro. Nós duas igualmente míopes, ela um pouco mais bonita e eu um pouco mais alta. Estávamos contando os dentes na ocasião, mas a lembrança da motivação para tal é algo que eu não chego a acessar.

Minha irmã, sempre mais asseada e calma, se horrorizou ao me ver enfiando o indicador na boca para contar meus dentes. "Trinta e dois", eu declarei com o dedo babado pendurado perto do meu rosto. Ela levou mais tempo, decidiu contar os dentes usando a língua de ponteiro. A resposta veio alguns segundos depois, "Vinte e oito".

Para minha irmã, faltavam os sisos. Eu passava das três dezenas, mas ela não chegava a alcançá-las. Minha querida irmã, singelamente mais nova. Eu a olhava, nós éramos quase idênticas, mas eu já dava sinais de atrofiamento no crescimento. Meus dentes se encavalam.

O apito insistente do micro-ondas me convida-obriga a catar minha comida descongelada. Encosto a língua no fundo da boca, lá atrás, no final da minha fileira de dentes superiores. Eles estão ali, dois de cada lado da boca. Os dentes de juízo que cresceram a revelia das minhas preferências estéticas e que se mantêm ali.

Trinta e dois dentes. Todos à mostra, todos em riste, ameaçando a carne macia da minha gengiva.

O micro-ondas apita novamente. Pego a comida e me lembro da canção. São trinta e dois dentes e o mundo está posto na minha frente. Sinto o desespero nascer e fazer minhas mãos formigarem. Não posso ficar para trás, mas me calo com a boca de feijão.